sábado, 18 de abril de 2009

Penitência de um jovem jornalista cadeirante

Como um bom menino e arrependido de não ter feito o que deveria e por isso recebi vários puxões de orelha, inclusive do mestre da Folha, eu caminhei ao Conselho Municipal dos Direitos da pessoa com deficiência de São Jos´dos Campos.

A seguir o texto na íntegra:

Ao Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São José dos Campos

Eu sou Luis Daniel da Silva, 24 anos, cadeirante e jornalista. No dia 16 de abril de 2009, fui participar do Seminário “Problemas e Soluções Urbanas”, realizado no Parque Tecnológico “Eng. Riuji Kojima”, promovido pela Prefeitura Municipal de São José dos Campos. Ao chegar no local, fui abordado por uma senhora que me pediu para acompanhá-la e me disse que ia solicitar para algumas pessoas que auxiliassem a subir as escadas para ter acesso ao auditório onde seria realizado o seminário.

Fiquei surpreso com aquela situação. Imaginei que a prefeitura de São José dos Campos fosse realizar tal evento em local acessível a todas as pessoas, inclusive nós, com algum tipo de deficiência.

Eu estava com minha cadeira motorizada e avisei a senhora que a cadeira era muito pesada. Ela me perguntou se eu não preferia trocar de cadeira de rodas, pois eles teriam outra cadeira, mais leve, para me oferecer. Disse prontamente que gostaria de permanecer na minha cadeira de rodas, pois ela é totalmente adaptada para as minhas necessidades. Acompanhei-a até a frente da escada e esperei os homens que fizeram um esforço tremendo para subir os dois lances de escada, com mais ou menos dez degraus cada. Assim, tive acesso ao auditório, onde estavam presentes várias pessoas e autoridades, como vereadores, o prefeito Eduardo Cury e o deputado estadual Hélio Nishimoto e vários colegas de imprensa.

Fui informado de que poderia chegar ao pavimento acima por uma outra entrada, mas teria que chegar até lá de carro, atravessando boa parte do complexo tecnológico, o que também rechacei, pois teria que sair de minha cadeira de rodas e provavelmente desmontá-la para colocar dentro de um carro a ser cedido por quem fosse. Desta forma, não entraria pelo local que os demais entraram, e sim, por uma “alternativa”.
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Durante o evento, chamei a atenção dos participantes, em sua maioria engenheiros e arquitetos, para a falta de acessibilidade do local. O que chega a ser contraditório, afinal, o seminário discutia os “Problemas e Soluções Urbanas” do município, e a meu ver, a questão da acessibilidade aos órgãos e lugares públicos é um dos grandes problemas urbanos da cidade e de todo o país.

Ao questionar, Alfredo de Freitas Almeida, presidente da Urbam, Urbanizadora Municipal, gestora do Parque tecnológico, em relação à falta de acessibilidade do prédio, ele responsabilizou a antiga dona do local pelo problema e afirmou que providenciará um elevador externo, ou seja, de fácil instalação.

Na minha visão de pessoa com deficiência física e jornalista atuante no setor da inclusão social, esta é uma solução que não atende aos reais direitos da pessoa com deficiência de um acesso universal, ou seja, o mesmo acesso que alguém sem deficiência utiliza, a pessoa com qualquer tipo de deficiência ou mobilidade reduzida tem o direito de usar. Para isso, basta que os responsáveis pela construção e adequação dos prédios públicos e privados construam locais com entradas, saídas e infraestrutura com acesso para todos, sem que nós precisemos usar “acessos alternativos”, como no caso do “elevador externo e de fácil instalação” ou a entrada do piso superior que não era a oficial.

Ao responsabilizar a antiga dona do prédio, o senhor Alfredo de Freitas Almeida tenta isentar a prefeitura de qualquer falha na estrutura. Mas, vale lembrar, o complexo tecnológico foi inaugurado oficialmente há três anos, em março de 2006, tempo suficiente para haver a adequação do local. A meu ver, não se justifica a argumentação do gestor.

Quero, neste relato, manifestar a minha indignação contra a situação constrangedora e perigosa que a Prefeitura de São José dos Campos me fez passar ao não cumprir a legislação que determina acessibilidade universal, ou seja, a todos. Pois, isso colocou minha integridade física em risco.

Solicito ao Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São José dos Campos para que tome as providencias cabíveis para notificar a prefeitura por não ter infraestrutura adequada para a realização do evento paradoxalmente chamado de “Problemas e Soluções Urbanas”.

Atenciosamente,
Luis Daniel da Silva
Cadeirante e Jornalista (MTB 52.249-SP)
www.reflexaosobrerodas.com.br

11 Cornetadas:

Rafaele Silva disse...

Realmente, é vergonhoso saber que um prédio, com toda aquela infraestrutura, não tem acesso aos cadeirantes. Isso porque todo local denominado público deveria ter.

Rafael Henrique Cruz disse...

Parabéns pela iniciativa!
Na próxima atualização do box de links e notícias da homepagem da Internet Diferente colocarei um link para este seu post. Esse nosso cliente merece destaque.

Rafael Henrique Cruz
http://www.internetdiferente.com

Jairo disse...

Boa. Abraço

Maria de Fátima disse...

Meu querido sobrinho Daniel

Lí seus escritos....fiquei imensamente orgulhosa de vc....está muito bem escrito e contextualizado...continue denunciando pois assim teremos um anúncio de um mundo melhor...

beijos

Tia Fátima

Luis Daniel disse...

Eba, o mestre me absolveu hahahaha. Obrigado Rafael pela indicação, quem sabe a gente arruma um patrocinador pro blog hehehe
Rafaele, é, a luta é grande. Tem-se muito o que fazer e conto com a participação de todos para um mundo mais acessível
Querida tia Fátima, muito obrigado pelas palavras, vou continuar semtre nessa guerra, porque mais de que um segmento social descriminado, é aquele que eu passo na pele e a senhora sabe disso mais do que minha tia e me conhece desde criança. é uma excelente assistente social.
Até mais e continuem me cornetando aqui, abração

Cybelle Varonos disse...

Yessssssssss
Bjokas!!!!

Rodrigo Almeida disse...

Boa iniciativa, Daniel. Tomara q ela gere bons resultados. Abraço.

Anônimo disse...

Que merda ein cara... Esse Parque é embassado mesmo, inclusão social em São José não é exemplo pra ninguém... Abraço!

Anônimo disse...

Oi Luís Daniel, você tem toda razão, essa situação é absurda. Vamos torcer para que sua iniciativa traga resultados.

Eu disse...

É, Daniel, a gente só sabe o que são as coisas quando a gente passa por elas...

Falo isso por causa desse trecho: "(...) esta é uma solução que não atende aos reais direitos da pessoa com deficiência de um acesso universal, ou seja, o mesmo acesso que alguém sem deficiência utiliza, a pessoa com qualquer tipo de deficiência ou mobilidade reduzida tem o direito de usar".

Não sou cadeirante, então nunca tinha percebido o quanto deve ser chato (e as vezes incoveniente) você ter que usar um caminho, sozinho, que não pode ser compartilhado por quem está com você...

Até ler isso, achava perfeita essa solução dos elevadores...

Rosana disse...

APLAUSOS, MUITOS APLAUSOS PRA VOCÊ...

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