segunda-feira, 9 de março de 2009

O filho pródigo retorna à “Matrix”

Aí alguém vai perguntar o que a parábola bíblica tem a ver com a trilogia futurista. Calma, eu explico. A história do filho pródigo conta que um filho, depois de gastar toda sua parte na herança, retorna para casa de seu pai com uma mão na frente e outra atrás.

Matrix é um termo que tenho lido bastante no blog “Assim como você” do Jairo Marques, da Folha. O jornalista, que é cadeirante, usa a tal expressão para definir “o mundo paralelo” em que as pessoas com deficiência vivem, pois quase sempre não têm lugares acessíveis para frequentar.

O negócio é o seguinte, quando eu era pequenininho, meus pais lutaram para que eu pudesse ter uma escola para estudar. Pois para quem não sabe, no começo da década de 1990, quando comecei a estudar na pré-escola, era difícil uma escola aceitar alguém que tivesse alguma deficiência.

Eles fundaram associações com outros pais para defender nossos direitos de estudar, lazer, esporte e outras coisas. Com isso formou-se um grupo muito unido dos pais e das crianças. Tínhamos até um coral infantil só de crianças com deficiência.

Fiz da pré-escola à terceira série em salas só alunos com alguma deficiência. Não eram todas as escolas que tinham essas salas, deveria haver umas três ou quatro dessas aqui na cidade. As turmas iam da pré-escola até a quarta série somente, depois disso, os alunos eram “integrados” às salas dos ditos “normais”.

Minha integração aconteceu na quarta porque somente eu da turma da terceira passei de ano (Ê menino inteligente!!!). Só que para eu mais bem me adaptar e até conseguir uma vaga na escola perto de casa, continuei a estudar na mesma escola onde tinha a “sala especial”, nessa época eu ainda era bem ligado com o povo da Matrix.

No ano seguinte, consegui uma vaga para estudar na escola perto de casa, onde meu irmão e meus vizinhos estudavam, foi aí que comecei a me distanciar da Matrix. Não dependia mais do transporte da prefeitura para ir à escola, meus próprios pais me levavam, era uma beleza. Estudei quatro anos naquela escola, de onde guardo excelentes recordações.

Quando fui para o ensino médio, fui estudar numa escola particular. Lá eles fizeram rampas para os lugares onde eu precisava ir. (Não sei se chegaram a adaptar o banheiro, pois nunca precisei usar, graças à sonda).

Bem distante do mundo Matrix, fui para faculdade, realizar meu sonho de ser jornalista para falar de futebol e política (Que ilusão!).

Já no primeiro ano fui convidado diversas vezes para ser entrevistado para falar como era a vida de uma pessoa com deficiência. O bacana foi que acabei criando amizades em todos os anos e cursos lá da então Faculdade de Comunicação e Artes. Juro para vocês, durante os quatro anos, dei bastante entrevista, tanto que perdi a conta.

Depois de um semestre que meus pais me levaram todos os dias na “facul”, comecei a andar no “transporte especial para portadores de necessidades especiais”, nome que é colocado nas portas das vans adaptadas que eram e algumas ainda são utilizadas. Nome que além de redundante, para mim, é errado, mas isso é assunto para uma outra postagem.

Reencontrei alguns amigos da época da luta de meus pais, como a Débora Bertolotti, o gêmeos japoneses, Elcio e Erik e conheci outras pessoas como o Sérgio e a Alessandra.

Presenciei e escutei muitas histórias nas viagens e recomecei a rever o mundo Matrix, os perrengues que alguns passam, as brigas com o pessoal da Secretaria de Transportes para conseguir agendar o horário de uma viagem. Todo dia tinha uma reclamação. Até que começaram a me cobrar por uma reportagem que contasse algumas histórias de lá.

Foi aí que “juntei o inútil ao desagradável” (assim fica mais interessante para se ter um conteúdo jornalístico). Eu precisava de um tema para o famigerado TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e resolvi fazer a tão solicitada matéria.

No terceiro ano da “facul” fui incentivado por uma amiga, a Priscila Souza, então formanda de jornalismo a fazer um blog e foi assim que nasceu o “Reflexão sobre rodas”, onde comecei a escrever sobre tudo, mas principalmente futebol e política, sem ligar muito para o povo da Matrix, pois eu insistia que não fazia parte dela (Seu burro!).

Vocês não devem “estar entendendo” porque estou a escrever tudo isso, mas vou explicar agora mesmo.

A semana que passou foi muito importante para mim, precisei tomar algumas decisões para minha vida de ser humano com deficiência física seja profissional ou pessoalmente, como ser o mais independente possível de meus pais, fazer coisas que há muito tempo eram para terem sido feitas. Uma delas interfere neste blog e consequentemente para quem o lê.

Fica definido que a partir de agora os assuntos tratados neste espaço virtual são relacionados somente ao mundo Matrix, ou seja, o Reflexão só vai tratar de temas ligados à pessoa com deficiência, mas é claro que englobará política e esporte, sendo que tenha algo a ver com a inclusão da pessoa com deficiência. Para facilitar a minha situação e não concorrer diretamente com outros blogs do gênero, o ambiente principal será São José dos Campos e o Vale do Paraíba.

Este blog não é só para o povo da Matrix, é e principalmente para quem não dela para que todos possam se conscientizar que a sociedade precisa ser mais acessível e igual a todos que fazem parte dela.

12 Cornetadas:

Talita Melo disse...

mto bom Dani..
demosntra amadurecimento e escolhas na sua vida profissional..
além de ser o velho exemplo de nossos orientadores "foc, foco foco e foco", não dá pra abraçar o mundo..
fico mto feliz por ti!!! orgulhosa!

Jairo disse...

Luis, desejo que a nova fase do seu blog seja próspera e que contribua, como não teho a menor dúvida, de forma substância para que possamos "dominar o mundo". Vc tem um bom texto e ótimas idéias, então, agora é só "tocar pra frente". No "Assim como Você", eu, por princípio, só publico textos inéditos, mas, a agente ainda combina de vc fazer algo pra lá! Abração e muito boa sorte.

Luis Daniel disse...

Jairo, primeiramente é uma honra te-lo como meu leitor aqui no Reflexão e agora mais ainda, com certeza, agora vou prestar mais atenção nas coisas que estão ao meu redor.
Obrigado e apareça aqui sempre.

Maria Alice disse...

beem legaal,comoo eu cabeii de ti falaar como é gostosoo faze coisas paraa que as pessoas a nossa volta nos entenda melhor !
mesmo ke nos mesmo nao nos entendemos ;S
ASHUAHSUHASUAHS
muuito legaal msm vio!
BEiijo'

Bianca Santana disse...

Dani... adorei... focar facilita bem a vida, como está num outro comentário... não dá para abraçar o mundo...então te desejo td d bom neste caminho do Reflexão sobre Rodas...

Bjus

Leonardo Reis disse...

Oi Luis

Boa sorte nessa nova fase.
Sou novato nesse mundo dos blogs, mas imagino como deve ser difícil conquistar leitores em meio a tantas opções no espaço virtual.

Sempre rodando pra frente...
Abs!

Wanderley M. de Assis disse...

Meu caro colega cadeirante Luis Daniel, acho que o fato de estarmos em uma cadeira de rodas não nos obriga a vivermos em um mundo paralelo, compreendo que o planeta não esta construido de forma acessivel a todos mas como vc mesmo disse na decada de 90 era bem mais dificil, tivemos pessoas que contribuiram diretamente para que hoje as coisas estejam mais faceis como seus pais e os pais de outras crianças com deficiencia por exemplo.
Fico felliz em saber que tomou a decisao de escrever sobre o segmento PESSOA COM DEFICIENCIA, até mesmo porque o que mais prejudica e inclusão social é o preconceito e o preconceito é derrubado facilmente com uma arma poderoza que os profissionais do jornalismo assim como vc são credenciados (tem o porte)para utuliza-la, a informação.
Parabens por esta decisão que tomou e espero que isso te traga muita felicidade pessoal e profissional.

Wanderley M. de Assis
www.pessoacomdeficiencia.com

Michell disse...

Tomara q vc obtenha sucesso, boa iniciativa, ainda existem mts pessoas que tem preconceito contra pessoas deficientes!!


www.tutoart.net

Tomaz disse...

Meu amigo Dani, primeiramente devo confessar que fazia tempo que não aparecia por aqui, mas que fico muito feliz pois você está escrevendo muito bem!!!
Te desejo muita sorte em todas as suas escolhar e apoio sua iniciativa de lutar po rum mundo mais acessivel!!!

Grande abraço!!! Tomaz

Anônimo disse...

Isso ai, boa sorte na nova empreitada!

mary disse...

Acabo de ler o primeiro artigo do jornalista Lius Daniel. Nele não consegui ver alquele memino, quase bebe que conheci há 20 e poucos anos, que chorava muito até conhecer umas peças de dominó.(lembra????). Vi um ser humano maduro, ciente e atualizado. Parabéns!! Voce está maduro!!!
Bjs
Ines

Mariane de Almeida disse...

Daniel, fico feliz em voltar no blog e deparar com este post. Queria dizer que, realmente, um cadeirante, ou protador de qualquer outra deficiência, é e sempre será um ser humano, e isso significa que ninguém é melhor nem pior do que os outros. Fico feliz por sua iniciativa (apesar de ser triste saber que dificilmente vc fará aqueles pots sarcásticos falando da política, mas td bem hehe, posts esse que muitas vezes me inspiraram, saiba disso, hehehe)

sucesso nessa nova empreitada hehe

bjus

Postar um comentário | Feed



 
^

Powered by Bloggerblogger addicted por UsuárioCompulsivo
original Washed Denim por Darren Delaye
Creative Commons License